15.08.2017 – 00:56

Falava ao telefone inquieto, ansiava para que o receptor do outro lado se desconectasse. Creio que se tratava de uma criança pelo jeito doce e pueril com o qual ele o tratava

(“Quando eu chegar em casa a gente se fala, tá, meu anjo?”) Disse que estava com saudade, tudo bem apressado. Seu escudo era o descuido do “tá, tchau” apressado e mimetizado incontáveis vezes. Não soava grosseiro, contudo.

As sílabas da tentativa de despedida redundantes soavam esquisitamente como um mantra, um som fundamental desesperado e desamparado por toda a paisagem sonora caótica que o transporte público adota para si.

Desespero inútil. A suposta criança do outro lado da linha logo desligou e deixou que o rapaz seguisse em paz seu trajeto rumo à monotonia de qualquer lugar que fosse. Apesar da pressa intermitente pelo término do diálogo virtual, pareceu desapontado com a ligação ter tido finalmente seu fim.

Eram sete da noite,

(quase sete)

e a fadiga e a solitude e a imensidão dos corpos amontoados eram consoantes com a confusão sentimentaloide do dito cujo.

{…}

Simultaneamente,

eu, que tive a sorte de estar r e l a t i v a m e n t e confortável no sacolejar do transporte público,

(o sono me levou uma duas três muitas vezes)

pensava no retorno ao aconchego que Thompson me fizera sentir outrora. Retornei a Retalhos como quem retorna a um tempo específico:

como quem retorna a si mesmo

mas sem se reconhecer nesse “si” 

sem caber nesse “si”

porque esse antigo e ultrapassado “si” já não dá conta do novo “si”. 

Não me achei na melancolia de Raina & Craig & da colcha de retalhos.

Perdi-me novamente no espaço entre eu e ti.

entre o meu e o teu.

Reconheci teus traços nos traços de Thompson.  Teu amor inviolado e subjetivo e tímido e escroto tá ali.

O desconforto de não saber gostar, de não saber se encaixar na alteridade do outro e se sentir mal adentrando um corpo que não é o seu. Nem se parece com o seu.

Mas ainda assim querer esse corpo. Desejá-lo em uma sinestesia com o teu próprio.

Lembrei do rascunho do meu óculos de um tempo atrás, com “in the deepest ocean / the bottom of the sea / your eyes / they turn me“. Um rascunho teu, com a tua caligrafia.

Nada caprichado: nunca gostei tanto de Radiohead quanto depois daquele dia.

Lembrei que tua língua sabe os trejeitos do meu corpo. Que teu afagar decorou os botões do meu arrepio que floresce.

Lembrei do teu assombro quanto te perguntei sobre o que achava do amor.

Lembrei que eu prefiro ser fria a soar piegas

(e lembrei que isso me faz meio tosca.)

Lembrei que o acaso de me apropriar da tua presença física e metafísica ainda me soa estranho.

Lembrei da preocupação tímida que subjaz entre nós e que, de quando em vez, sabe ser incômoda.

Lembrei que o processo de você é irreversível. 

 

Cristina Vela aka Cristina Martos Vela aka Mielytu (Spanish, b. 1983, Jaén, Spain) - From Castigos (Punishments) series, Nº 10, 2014 Drawings: Ballpoint Pen on Paper

© Cristina Velas – Castigos
“o corpo é feito da mesma carne que o mundo (é um
percebido) e que para mais essa carne de meu corpo é
participada pelo mundo, ele a reflete, ambos se imbricam
mutuamente, (o sentido a um tempo auge de
subjetividade e auge de materialidade), encontram-se
na relação de transgressão e encadeamento”
marleau ponty 

Meu corpo é uma colagem de partes de corpos rechaçados de outrem. É produto de medos, anseios, fugas, sangue. (o)pressões de múltiplas espécies. Olhar-me no s espelhos (quaisquer que sejam eles) é fecundo martírio, assombro que reverbera séculos de vozes que têm pavor ao que não é belo. Aliás, eu sou a manifestação do repúdio. Sou o compêndio da ausência de beleza e de fluidez dos tempos. Então me sobrecarrego, ignoro violentamente as fronteiras que delimitam meu corpo. Jorro imensidão estapafúrdia EM LETRAS GARRAFAIS que me consomem a sanidade. É doentio que eu submeta a minha síntese física a tão austero auto-flagelamento.

[…]

Usar de poesia para sintetizar a minha doentia relação com meu corpo físico é uma espécie de refúgio, mesmo que me soe um tanto quanto eufêmico.

Corpos são construções, edificações, emanações físicas do que se constrói socialmente e envolve as noções do estético e do belo. Envolve o emanar palpável de uma identidade, subjetiva & coletiva. A percepção do ser corpo só é possível diante do compartilhamento espaço-temporal-metafísico com outros corpos; corpos externos, distintos, mas ainda assim complementares. A construção da corporalidade é limitada por moldes externos que determinam o espaço que cada corpo deve ou não ocupar,

                             a beleza que deve transvestir, 

                                                            a cor que se deve usar, 

                                                                                 o porte que se deve andar. 

A leveza de um corpo tange e dialoga com cada um desses pressupostos de existência corporal. Caso ela seja ausência em qualquer desses critérios, a existência de determinado corpo compromete-se. Um corpo sem leveza é um corpo sujo, um corpo vulnerável, estranho e invasor. Em suma, um corpo feio. E um corpo feio é subversivo demais ao senso estético que nos circunda.

Esse mesmo senso estético (sem face nome forma ou fronteiras definidos) me confidenciou esse mecanismo, antes mesmo de eu saber o que se entendia por corpo.  Transcrevi a repugnância em mim, antes da aceitabilidade. 

Esse senso estético acrítico, que nos atiram à face c o t i d i a n a m e n t e sem pudor, sem escrúpulos, sem amor. Trata-se  dessa onipresença coercitiva e vulgar que me assombra por inteiro que me enlaçou na relação conflituosa e altamente pesarosa com estranhos mecanismos de controle e manutenção dessa pseudo leveza tão supostamente cara à existência humana. 

Nunca fui leve como me pediram para ser. Transgredi, inocente e imprudentemente, essa norma que me foi imposta de maneira tão violentamente sutil. Quando percebi minha pretensa e descuidada soberba, absorvi o mea culpa e o amor próprio me foi surrupiado. Anos depois, o reencontrei. 

Ele continua frágil e beira o desamor.

[…]

Este manifesto (texto? crônica? conto?) é, em parte, dotado de certa empiria. Perdoa-me o tom caótico e desconcertante que dei. É esse tom, porém, parte da fidelidade da angústia que me circundam ao abordar este tema. Recentemente, me (re)descobri bulímica. Me assumo enquanto tal, uma vez que este é um sopro de anseio que me ronda todos os dias. Não se cura dos transtornos alimentares: quaisquer que sejam os que um dia lhe assombraram, lá eles permanecerão à espreita. A bulimia e todo o aparato pernicioso e asqueroso que a acompanham fazem os ditames da minha vida: não sei o que é prazer pelo comer. Há uma linha muito tênue entre a nutrição alimentar e a compulsão. Ao bulímico ou ao compulsivo, essa fronteira é turva, nebulosa. Cada refeição se configura em um fardo que, inúmeras vezes, é psicologicamente intolerável e se adquire o pânico pelo alimentar-se.

Os episódios de compulsão alimentar não têm necessariamente uma periodicidade para acontecer. São uma espécie de mimese de todo o auto repúdio que se cultiva e, ironicamente, fazem parte do mesmo mecanismo odioso de uma fuga viciosa e imbecil para lugar nenhum. O descontrole ecoa a vulnerabilidade e a instabilidade mental do indivíduo. E resultam em um pesar, físico e metafísico, imensurável e difícil de ser posto em palavras.

Esse pesar reverbera em crises de choro e em mecanismos purgativos e punitivos de si mesmo. É cruel.

Falo disso, de maneira tão aberta e tão dura porque demorei tempos demais a me acostumar com a ideia de ao menos falar sobre. Ainda me faz mal. Muito mal. Mas a leveza dos corpos deve ser universal porque ela é universal. Não me deve ser negado o prazer orgástico de residir confortavelmente em mim. Não me devo resignar diante da crueldade com que esse mecanismo me destrói.

Meus ossos, minha carne, minha gordura, minhas entranhas são todas partes do que me permite compreender e ser um alguém com relação a outro alguém. E estes são parte da totalidade daquilo que sou e não a própria totalidade.

Puras bestas que não comportam em si a pluralidade de curvas e ritmos que se manifestam. Somos falhos e estúpidos em nossa vã tentativa de padronização seletiva.

Agonizo em saber que sou parte desta cadeia podre e repulsiva.

Esgotei o meu pesar, peço perdão. Quero meu escape dessa prisão.

 

*

sentir-se corpo (03.07.2017)

Falemos sobre transtornos alimentares.

© Mariam Giunashvili (@mzesu)
© Mariam Giunashvili

Você penetrou em mim todos os seus odores. 

E agora meu cotidiano exala teu cheiro acre, meu suor tem sua viscosidade e minha pele é um retalho mal costurado das suas várias texturas. Temo pelo enjoo inevitável que engendro organicamente de perceber-te nos meus atos. Um afastamento sinestésico do Ser psíquico que abrigastes em mim. Os corpos que tocastes outrora te parecem mais anatômicos e harmoniosos para ti, sob meu chulo compreender. Sou manifestação de tudo quanto renegas, expressão do que encaras como ridículo. O problema reside no fato de que esse mesmo ridículo tange e delineia suas partículas em um vão e pueril objetivo de moldar-se e conjugar-se a elas.

O desgaste desse esforço esgota-me.

e eu nego teu aproximar / enquanto rogo pelo teu / roubo de mim

Cada frame do espetáculo teatral, escrito por mim e através de mim, perpassa teus monólogos, mas não os compreende. Não sou nativa do teu querer. Adoto, então, teus maneirismos, interajo com os autóctones do teu domínio. Prossigo, marginal-desajustada-estrangeira-desconhecida. Usufruindo ilegalmente de suas fronteiras e do comodismo que essa vulnerabilidade me oferece.

Exploro-te de maneira maltrapilha com a consciência de que um outro alguém amaria tuas entranhas talvez de maneira mais bonita. Tornei-me dependente da simbiose que involutariamente tu me concedes. O meu enxergar depende do teu visto, meu sentir depende do teu palpitar e minhas tentativas de apatia são risíveis. Tu és minha vicissitude mais viciada, minha antítese mais harmoniosa. Minha ausência condiz com a minha covardia de lidar com teus ditos obscuros. Todas as suas cismas e traumas e amores atormentam-me durante meu insone repousar.

Você penetrou em mim todos os seus odores e não há perfume que cure. 

(21.05.2017)

”Moths on the window pane.” Insects close up. 1953. (©nemfrog)

lepidoptera

1.

Outro dia, fiz um discurso vazio para um cômodo vazio. Absolutamente todos os ouvintes presentes absorveram meus queixumes e compreenderam com fervor cada uma das minhas pertinentes colocações. Dizia-lhes eu o aborrecimento que causa ter de adotar manejos, costumes e vestimentas pertencentes a outrem. Contava da miserável experiência da costura de um coração alheio, atirado ao léu e ao nada. Veja: não se tratou de uma substituição, mas antes de uma amálgama simbiótica de meu próprio músculo cardíaco com o inesperado achado. Toda vida fui afeita a adornos vários e este, em particular, harmonizou-se com o pulsar manifesto pelo meu próprio devir orgânico. Pois bem, suturei-o e me pus a deambular de cá para lá com o meu virgem bater extra. Sentia-o firme, entrelaçado com o costumeiro estralo de minha existência. Prestava-me aos maiores sustos e lamentações, a fim de testar sua funcionalidade. Admirei fragilidades várias de rapazes diversos, correspondi sorrisos fortuitos, formalidades mútuas e escrotidões alheias. Permiti-me dobrar a cota de infortúnios, lágrimas e desgraças diários. Estando à mercê de um coração extra, sentia-me envolta em uma espécie de cova, sob o aconchego de um túmulo intransponível. (Abro aqui uma brecha nesta, já confusa e deficiente, narrativa: nesse ínterim, negueime o amor e a carnalidade. Expor-se a tais fragilidades humanas não condiz com o sofrimento que pode surgir do uso exacerbado de dois corações. As fronteiras entre o amar, a bestialidade e a idiotice manifestadas por nós, pueris indivíduos que pensam que sabem do cosmos, é frágil e rompe-se na menor manifestação de exageros. No mais, foi uma resolução conjunta de minha psique e de meu corpo negar-me a tais contingências e vicissitudes. Censurei-me do amor.) Registro, por mera convenção etnológica e para eventuais estudos posteriores, que entreguei-me a solitude quando em posse de meu remendo cárdico. Travei batalhas psicológicas com meu ego solitário e provei-me de mil diálogos. Realizei incontáveis catarses e incitei-me a dicotomias infantes. Fui Kerouac e Ginsberg. Fui Borges, fui Cortázar. Travestime com os funestos de Clemente, de Dona Gertrudes, de Catalina. Fui o ápice de mim mesma, fluí-me para o abismo de toda minha literatura. E o pobre coração suportara a tautológica carga aflitiva à qual eu o havia submetido, enquanto o sol permanecera em seu lugar de praxe.

2.

Acontece que ao cair da noite, à medida que a melancolia noturna adotava o protagonismo das horas, senti-me envolta em desconforto. O palpitar rotineiro fez-se mais perceptível, mais harto. Dissonava de minha placidez. Soava como uma tentativa de prosa com meu agoniar insone. Dediquei meus lampejos de atenção aos lamentos, o flutuar e o burburinho com as quais as mariposas gracejavam a presença lunar. O ressoar de suas asas e de suas metamorfoses envolveu-se de um lirismo oneroso, monocromático. Belo, em todas suas dimensões, como um canto. A utópica harmonia das esferas fez-se palpável, a ponto de eu tocá-la e sentir seu peso atribulado e escamoso. Cingi-me de frações múltiplas que beiravam a perfeição sonora, espacial, estética e universal. As mariposas e sua obstinada atmosfera doentia e cinza fizeram-me transcender a condição humana. Tornara-me não mais do que a leveza pagã das bruxas mariposas. A escuridão alimentava minha filosofia e o palpitar transbordava a função orgânica. Em séculos de existência, que se estenderam por singelas frações de segundo, fiz-me larva. Conectei-me ao barro, à repugnante fértil terra marrom. Suscitei manifestações de agrura. Seres me repudiaram; outros fizeram de mim sua nutrição. Fui amante das plantas. Fui espetáculo e vitrine. Ao enojar-me da exposição, fechei-me crisálida. Cultivei-me em uma aparente morte. Fiz de mim reduto da arte, da harmonia negra. Meu combustível foram os cantos de bruxas e meu cozimento se deu em seus caldeirões ornados de bestiais fogareiros. Sou filha e fruto das mulheres subversivas, dos cultos à deusa mãe. Sou maldita desde a minha gênese. Por fim, renasci flor em asa. Meus tons escuros saciavam a beleza notívaga e aprendi a camuflar-me nas sombras das histórias noturnas. Presença fugaz, fui curandeira espectadora dos ciclos lunares e fui amante da voluptuosa lua. Adornei de escuridão êxtases alheios através de meus pérfidos olhos que nada viam. Regurgitei luz e erigi câmaras escuras metafísicas que me serviram de abrigo. Fui mariposa. E amei-as carnalmente em meu breu velado.

3.

Ressuscitei do transe com a ressaca matinal. Percebi, de súbito, que voluntariamente atrelei a meu viver a pior possível das paixões: tinha um coração que pulsava em prol da noite e toda a obscuridade que lhe fazia companhia. Manifestada em mariposa, fazia jus a uma pseudo morte para adentrar à uma vida de carnalidade notívaga e obscura. Consumia a luz para em seguida renega-la e subjuga-la a escuridões várias. Transmiti meu amor a um pesado ranger de asas leves e me submeti a cotidianas e sucessivas prisões cativas. Sou a manifestação mais insignificante das deusas bestiais e xamânicas de infinitas gerações de marginais. O coração renegado por outro alguém e adotado por mim, revestiu-se de uma importância orgástica e vital desde esse fatídico episódio.

Outro dia, fiz um discurso vazio para um cômodo vazio.

{…}

Giorgos Rorris aka Γιώργος Ρόρρης (Greek, b. 1963, Kosmas, Arkadia Kynourias, Greece) – Unsought Glance, 2002  Paintings: Oil on Canvas

 

Passo-me em revista: uma morte forçada dentro de um cotidiano frouxo.

Estar morta é, neste sentido, um estado de espírito de caráter amenizante. Trata-se de uma morte sentimental: que cesse todo e qualquer sentir. Quero anular-me dentro de uma prisão racional e que todo o pesar ou humanidade não caiba em mim. O exterior me é uma representação imagética da qual não faço parte em momento algum: não passa de uma transeunte inexpressiva e apática, vagando em uma solidão errante e desleixada. Descompasse caótico.

Veja: tal morte metafórica é o escape metafórico que forjei para o desmonte do Universo que construí para ti no espaço físico & metafísico de mim. A absorção que fiz de ti, corpórea e espiritual, se converte no meu eu orgânico. E a partir de então não se trata de uma perda, é um acréscimo do que sou. Sou ridícula e estupidamente fraca para lidar com tua perda. Tua face e teu corpo nada mais são do que harmonia vítrea, embaçada, sem forma definida. Um abrigo que me protege do meu próprio congelamento sentimental. Um sussurro íntimo que traduz as entrelinhas do meu pensar. Pesa- me esse afastamento contínuo e desconhecido que perpassa todos os meus atos; soam como tentativas irrisórias da minha falta de (des)amor.

{…}

Invado teu espaço e o tinjo de uma cor que não te agrada. Egoisticamente, exijo teu bem estar vinculado ao meu. Não te sinto (ou me nego a sentir-te), como o costumava fazer. Encaro como uma desarmonia que julgo ser maléfica para mim, para ti, para nós. Engole-nos.

Tudo atinge-me. Mas tu me és inatingível e mesmo assim, há uma continuidade de mim que reside em ti. É uma continuidade pueril e dependente, contudo, demasiadamente opressiva. Desconheço em que medida tua indiferença golpeia-me.

Desejo descontinuar-me. A ideia do desvínculo, porém, me é apavorante. O congelar sentimental e a gênese da racionalidade fria e imbecilizante emanam de meu ser e me transmuto em ser bestial, desprovido de todo e qualquer afeição por quem quer que seja.

{…}

Tua ausência me traz um receio tenaz de revestir-me dessa áurea de ausência sensível. Desejo sentir-me no teu sentir. Quero me prover da tua língua. Anseio dançar sob teu cantar. É justo que eu renegue a lascívia? Me é torturante a interrupção do gozo sentimental que sinto diante de ti.

Abstenho da minha condição de ser. Faço parte de um seleto grupo de pandemônios sentimentais que, tolos, recusam tal posição no panteão dos deuses marginais.

Estou só em meu a-sentimentalismo tosco. Me é impossível tocar-te.

e u s i n t o  (23:41 – 05.04.2017)

 

 

 

 

(sonoraSet Fire to Flames – In Prelight Isolate)

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james zucco

Soou como uma desconexão literária: um conto monótonoconfuso que diluiu as fronteiras entre o real e o irreal. É patético e pueril transpor novamente a barreira entre o palpável e o cósmico. Estamos fisicamente no instransponível e estamos SÓS. Vagando. Soturnamente contemplando a vicissitude do nada caótico. Numa confusão babelística, nos confundimos uns aos outros, confundimo-nos em meio ao calor furtivo de nossas emanações corporais. Tudo conspira para que os caminhos se percam dentre as infinitas entidades que nos circundam. Não somos, nós mesmos, tais entidades? Ou criamo-las, a fim de manter-nos sãos? Somos desperdícios de crenças e vícios. E desperdícios de sonos & sonhos. A realidade é nosso limbo, nosso mundo irreal banhado de uma fé nula de lucidez. A existência é um mero acordo velado entre nossas percepções aguçadas, que escondem sob máscaras mal modeladas da inocência a vulnerabilidade humana. Envergonhamo-nos daquilo que jaz por sob tais disfarces e recusamos a plenitude do que delimita-nos. Auto-negação através do flagelamento do efetivo s e n t i r.

m e d o a m o r ó d i o s e r s e n t i r b e l e z a s e n s i b i l i d a d e g o z o d o r c o r s e x o b e s t i a l i d a d e p u r e z a 

(et al jogado em um similar sacro inatingível à percepção humana)

(mas nós mesmos somos os nossos próprios deuses. coitados de nossos deuses. sãos vãos.)

As máscaras caem e o teatro da realidade mostra-se débil. Vagamos dentre os universos que enterramos em tempos imemoriais. Bailamos com deuses, bruxas, satãs, musas e poetas.

Todos eles nossos alter egos mais belos & sensíveis.

A inexistência da  realidade (25.02.2017) 

Keith Negley (American, b. 1978, CT, based Brooklyn, NY, USA) - 
The Violence in Our Heads

faltam vinte para meio dia e o dia se colore da falta de cor dos dias nublados e banalmente me coloro de cinza, em um ato mimético.

me pergunto o porquê de toda essa escrita tosca, nula de sentido & significado, isenta de qualquer beleza gramatical que se transveste de uma nulidade tão banal.

é     como     se    os   espaços  entre  as palavras quemesufocamfossemsediluindonoespaçotempo

D E V A G A R.

e eu me entupo de tudo o que eu queria dizer & isso tudo flutua no meu infinito perceptivo

adotam faces, caracteres singulares e  anedoticamente se lançam em uma roleta psicológica. brincam, riem, confraternizam entre si em um eterno happy hour da minha ipseidade tão burra.

(mas todos eles são emanações da mediocridade humana de mim:

percepções minhas / contradições minhas / banalidades minhas /

que eu não soube organizar. que eu não soube acomodar amável & confortavelmente como se deve ser.

não obstante, eu os nutro e eles agigantam-se. pesam-me a psique.)

e em tal confraternização confusa e etérea as conversas são múltiplas e estridentes e eu me perco em meio ao riso em meio ao gozo em meio a falta de linearidade

meu querer era que a música cessasse. que meus pseudo convidados quiméricos dormissem. que meu acalanto fosse um entender do que todas essas emanações de mim aspiram. que eu fosse uma amálgama mais concisa e harmônica de todas elas. que eu pudesse ter um aval para enamorar-me da futilidade e das preocupações vãs.

mas a gritaria não cessa. a balbúrdia e a extravagância varam dias e varam noites e varam sóis e varam luas. e os versos desse sarau psicótico extrapolam meus multiversos e me tornam indefinida.

quando o festejo se der por acabado, restaremos  eu (ou a sobra de mim) e a desordem, mas nós não falamos a mesma língua.

eu deveria me preocupar (15.12.2016)